Entre Kuskus, história, Kaxupa e muita música, são assim os almoços no Talude

Num domingo quente de março, a Associação para a Mudança e Representação Transcultural organizou um dos seus eventos mais completos: os almoços de Kaxupa não são apenas uma refeição comunitária, são antes uma oportunidade para mergulhar na vida da comunidade cabo-verdiana que ali se instalou há vários anos. E tem tanto para oferecer.

O mestre de cerimónias (que tão bem conhece os cantos à casa, é Rolando Borges. Viu a AMRT nascer, pela mão da população, há 30 anos. Tinha 15 e já percebia o poder da união e de um propósito em comum. Há dois anos que está a tempo inteiro dedicado ao crescimento desta Associação, que já cativa curiosos além-fronteiras, como nesse dia, em que recebeu uma turma de jovens estudantes afro-americanas.

O ponto de partida desta viagem gastronómica e cultura começa com o Kuskus de farinha de milho da Jaqueline, acabado de fazer ali mesmo, na sede da AMRT. Com 31 anos, esta cabo-verdiana de sorriso tímido está em Portugal há oito meses e sonha com um trabalho que envolva cozinhar o que mais gosta. Desde os 12 anos, já andava de volta dos pratos, já aprendia os segredos de um bom kuskus com a avó. Num país onde há seca permanente, o milho e a cana de açúcar são a base da alimentação. Longe das influências árabes que estão mais entranhadas na alimentação ocidental, este kuskus serve-se de manhã, com café ou leite dormido (já fermentado), que aqui pode ser considerado um pouco azedo. Uma fatia quente onde se barra manteiga que logo derrete é uma experiência, por si só. O grupo anima-se com as explicações de Rolando e a perspectiva de um dia muito bem passado (e alimentado).

Para se conhecer o Bairro Militar do Talude, é obrigatória a passagem pelas hortas que ali se erguem, com vista para o Tejo. Há batatas, couves, feijão, alfaces, cana de açúcar. É inspirador ver tanto verde brotar da vontade de uma autossuficiência necessária para uma vida com dignidade. O Barbas cruza-se com o grupo, enquanto cuida do seu cantinho. Já não mora no Talude, mas a ida à horta é um ritual.

As jovens conversam entre si, questionam-se sobre um outro modo de vida que não o delas, sentem a ancestralidade que ali emana. Rolando aproveita o caminho para contar sobre os desafios que a comunidade enfrenta atualmente e como dá-la a conhecer pode ajudar a encurtar distâncias (e burocracias).

Destilaria do Cecílio
Destilaria do Cecílio

Quem participa destes almoços não se vai embora sem conhecer a destilaria do Cecílio, que ali tem montado todo o processo, desde da máquina para extrair o suco da cana, até ao alambique que tornará o néctar num poderoso grogue (aguardente de cana). É um deleite para as visitas.

Já o simpático Mundinho é quem assegura que tudo corre de feição e ninguém dali parte sem dar um gole ao álcool. Entre copos de suco ou grogue, o grupo está entusiasmado, curioso, quer levar garrafas e brindar. É contagiante a alegria dos anfitriões e convidados, num convívio que se repete a cada vez que estes almoços acontecem. A arte cabo-verdiana de bem receber é uma das características que a AMRT quer dar a conhecer.

Uma manhã cheia de atividade culmina no tão esperado almoço de Kaxupa, confeccionado de forma perfeita pela tímida Ana, que recebe elogio atrás de elogio ao seu tempero. Uma panela que parece não ter fim alimenta quem chega e paga cinco euros. Para este grupo de estudantes norte-americanas, o sabor, os condimentos ou a forma de servir apresentam-se como uma novidade refrescante da capital portuguesa. Concordam em uníssono que nunca pensaram ter uma experiência assim em Portugal e que será um dos pontos marcantes da viagem. Para Célia Pedroso, da Culinary Backstreets em Lisboa, parceira organizadora destes eventos, “o objetivo é mesmo esse, surpreender quem vem e mostrar que Lisboa não é só o seu centro. Há segredos que vale a pena partilhar”.

Entre a música tocada ao vivo e os clássicos da ilha, as jovens sobem ao palco para dançar com as mulheres da comunidade. Ali, não há estranhas, todas se reconhecem naquele ritmo, na vontade de comunhão e na alegria de um dia tão bem passado.

 

Os almoços acontecem mediante marcação prévia. As portas da AMRT estão sempre abertas a quem quiser conhecer.

 

 

 

 

 

 

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